Em Boadilla del Monte, uma cidadezinha ao lado de Madrid, o Grupo Santander construiu uma cidade financeira. Os diferentes departamentos do Banco foram reunidos em uma mega-área que está a 40 minutos da capital. Os trabalhadores têm horario flexível e um plus de 900 euros para o transporte. A área é de 165 hectares, com 100 mil metros quadrados de área construída em treze edifícios enormes. Tem vários restaurantes gratuitos, creches, instalaçoes esportivas (para tênis, volei, nataçao, golf, squash, etc...), bibliotecas, centros sanitários e inúmeros microbus que circulam dentro deste espaço, levando e trazendo os funcionários de um prédio a outro. Os jornais daqui chamam esta área de Campus Financeiro (super neoliberal).
Além dos trabalhadores do Grupo Santander, circulam aproximadamente 1500 pessoas, diariamente, para a prestaçao de serviços. Eu sou uma delas. Recebi a classificaçao de professora de idiomas - com direito a fotos e revistas à minha bolsa cada vez que entro e saio da empresa. Isso é muito irritante. Vou lá para ensinar os executivos a falarem português - às vezes, sinto como se eu estivesse ensinando os magnatas a roubar o meu povo. Bem ruinzinha esta sensaçao.
Bom, mas toda esta vasta introduçao é para falar dos diversos professores de idiomas que ensinam neste conglomerado. O Santander coloca um ônibus branco e enoooorme para buscar os professores em Madrid - e para nos devolver a esta cidade depois de ensinarmos os seus funcionários. Lá vamos todos, na hora do almoço, para nossas horas de classe - africanos de muitos países (com cabelos imensos de tranças e com batas maravilhosas; russos; suecos (loiríssimos, com traços de vikings); franceses; chineses; americanos; alemaes (com cara e cheiro de pouco banho); marroquinos, ...e a brasileira (com cara de poucos amigos, mas com os olhos curiosos voltados para a fabulosa fauna). Quando o ônibus recolhe esta miniatura de representaçao do mundo, os guetos se desfazem e é um tal de ti-ti-ti entre todos. Acho que este contato multicultural é a melhor hora do trabalho.
Quando entramos na organizaçao, imediatamente ficam nítidas as diferenças: os que trabalham no Santander andam de terno e gravata e os que chegam para dar aulas sao esquisitos, multicloridos, com roupas ponta-acima-ponta-abaixo. Predomina o desalinho, as bolsas grandes e os muitos livros nas maos. Quando o ônibus chega, cada um pega um micro-ônibus para o seu destino.
Eu dou aulas no Edifício Amazônia. É o edifício cujos funcionários trabalham com o Brasil. Meus alunos vao ao Brasil uma vez por mês. Uns, gostam; outros, nao. Hoje o chefao disse que os funcionários brasileiros (os do Santander) sao inteligentes, rápidos e criativos. Ele fez uma comparaçao interessante: disse que se chegar no México e der uma ordem, esta ordem pode levar dois dias para ser cumprida. Se ele chegar no Brasil e der a mesma ordem, levará apenas 4 horas para ser realizada. Segundo ele, os funcionários brasileiros ganham melhor que todos os outros (será?!?) por este motivo. Nao sei se os funcionários brasileiros estao contentes com seus salários.
Passadas as horas de classes, voltamos aos micro-ônibus que, por sua vez, nos levam ao ônibus branco. E outra vez recomeça o ti-ti-ti. Os 40 minutos de ida e os 40 minutos de volta sao um bom exemplo de multi-interculturalismo. As culturas se misturam estupendamente.